Em ratinhos, células pulmonares mudam de identidade para reparar vias aéreas

Imagine um pulmão cujas vias aéreas perderam todo o revestimento. O organismo tem de as reconstruir com as células de que dispõe, e durante anos a atenção concentrou-se nas células-tronco que já vivem no interior dessas vias. Uma equipa na China demonstrou agora, em ratinhos, que células-tronco vindas de outro lugar também podem fazer essa viagem. Algumas células-tronco alveolares do tipo 2 (AT2), as células que renovam os pequenos alvéolos onde ocorre a troca de oxigénio, saíram desses alvéolos, atravessaram as pequenas vias aéreas e transformaram-se em células maduras do revestimento das vias aéreas.
A questão era inversa. Estudos anteriores tinham documentado células club e células neuroendócrinas a migrar das vias aéreas para os alvéolos, para ajudar a reparar o tecido das trocas gasosas. O percurso no sentido oposto era muito menos conhecido. Para o seguir, os investigadores recorreram a uma técnica chamada rastreio genético celular de dupla recombinase, que marca um grupo de células para que os seus descendentes possam ser seguidos após a lesão, e danificaram as vias aéreas de duas formas: com uma substância química que destrói seletivamente as células club e com ratinhos geneticamente modificados para que determinadas células das vias aéreas pudessem ser eliminadas pela toxina diftérica. Ao microscópio e através de análises moleculares de célula única, a equipa observou as células convertidas a amadurecer até igualarem as células nativas das vias aéreas. Numa das experiências de lesão química, cerca de 52 % das células club regeneradas provieram das células AT2 ao fim de quatro semanas.
O movimento segue uma cadeia de sinais que quase se lê como um conjunto de instruções. As células imunitárias que afluem às vias aéreas lesionadas libertam a SPP1, uma proteína que se liga a um recetor chamado integrina β1 nas células dos alvéolos e as puxa para a lesão. Ao chegarem, as células passam por uma breve fase intermédia assinalada pela CLDN4. Depois, as células ciliadas vizinhas enviam sinais Notch, através de uma molécula chamada JAG1, que desencadeiam a sua transformação em células club. Os investigadores verificaram que quebrar qualquer um destes elos, seja a SPP1, a integrina β1, a CLDN4 ou a Notch, abrandava a migração e atrasava a reparação.
Para os doentes, a questão prática é o que acontece a seguir, e a resposta honesta é que o estudo ainda não o diz. Os resultados provêm de ratinhos, e as informações disponíveis não descrevem qualquer ensaio em humanos, nenhum calendário e nenhuma terapia. O que o trabalho muda é o mapa de onde pode vir a reparação das vias aéreas. As estratégias atuais para as doenças das vias aéreas concentram-se nas células-tronco já presentes nessas vias; os autores defendem que as células que vivem nos alvéolos podem fazer muito mais do que mantê-las, o que alarga o campo da medicina regenerativa. Saber se esses sinais podem ser estimulados em pessoas com asma, pneumonia ou bronquiectasia é uma questão para experiências futuras, e serão necessários anos delas antes de se tornar uma questão clínica.
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