IA de investigação data gravidezes com ecografias simples

Imagine-se um profissional de saúde sem formação em ecografia a deslizar uma sonda barata e portátil sobre a barriga de uma grávida, segundo um padrão fixo, e um modelo de IA a interpretar o resultado para estimar em que fase da gravidez está. É este o cenário que uma equipa da Google Research testou num estudo prospetivo publicado na JAMA Network Open, com o sistema a funcionar em tempo real em dispositivos móveis, em clínicas reais.
O que está em jogo é concreto. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 250 000 mortes evitáveis ocorram todos os anos por complicações ligadas à gravidez, e que dois terços das pessoas em todo o mundo não têm acesso a exames de diagnóstico como a ecografia. O padrão clínico para datar uma gravidez depende de um especialista que localiza vários cortes transversais do feto e faz medições precisas, uma tarefa que exige anos de formação e varia de um operador para outro. Como afirma a obstetra-ginecologista Nichole Young-Lin, «todo o nosso rastreio, grande parte dos nossos tratamentos e grande parte das indicações para o parto assentam nesta cronologia de referência».
O modelo foi inicialmente treinado com dados de ecografias recolhidos na Carolina do Norte e na Zâmbia, usando várias sondas comerciais. Para o novo estudo, foi associado a outra sonda portátil, a Clarius C3. A sua adaptação exigiu um pequeno conjunto-piloto de 120 participantes de Chicago, cerca de 6 % dos dados de treino originais, para lidar com o novo equipamento e prever a idade gestacional para além das 36 semanas. O local de Nairobi, uma rede de clínicas comunitárias, não recebeu qualquer ajuste fino, pelo que os seus resultados contam como um teste externo independente. O estudo incluiu também gravidezes múltiplas, mais difíceis de medir tanto para operadores humanos como para sistemas automáticos.
Na coorte principal de 385 participantes com idades gestacionais entre as 16 e as 36 semanas, o erro absoluto médio da IA, ou seja, a diferença média, em dias, entre a sua estimativa e a referência, foi de 4,18 dias nos dois locais. Os ecografistas especialistas obtiveram 4,48 dias. Em Chicago, o modelo adaptado atingiu 4,10 dias e, em Nairobi, sem qualquer otimização local, 4,27 dias. Os autores falam de não inferioridade: o sistema iguala o padrão especialista, mas não o supera. Numa análise exploratória, o modelo superou também as fórmulas tradicionais de biometria em fetos acima do percentil 90 de peso. O estudo foi conduzido pelos próprios criadores e os seus resultados ainda precisam de ser reproduzidos noutros contextos.
Por agora, os beneficiários imediatos são as clínicas onde há poucos ecografistas especialistas e as grávidas que, de outro modo, poderiam passar pela gravidez sem uma única ecografia. Uma ferramenta que exige apenas alguns dias de formação e uma sonda barata poderia alargar aí o rastreio pré-natal, mas só depois de mais validação e de uma implementação que o estudo não descreve. A Google Research não indica qualquer calendário para essa etapa.
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