Microscopia com IA distingue neurónios da ELA em laboratório

A primeira surpresa veio do retículo endoplasmático, uma rede de membranas existente em todas as células. Craig Blackstone, da Harvard Medical School e do Mass General Brigham, mostrou que partes dele, antes representadas como folhas planas, são na realidade redes de pequenos tubos, que mudam constantemente de forma. São este tipo de pormenores que importam nas paraplegias espásticas hereditárias e noutras doenças ligadas a mutações de proteínas. «Quando conseguimos ver como as estruturas no interior dos neurónios estão organizadas e como se transformam dinamicamente na doença, podemos começar a ligar uma anomalia genética ou molecular ao que acontece dentro da célula», afirmou Blackstone. Os neurónios são células excecionalmente grandes e altamente especializadas, que têm de manter a sua arquitetura interna a funcionar ao longo de grandes distâncias e durante toda a vida, o que torna estes problemas difíceis de detetar precocemente.
A imagiologia em tempo real acrescenta a dimensão do tempo. Erika Holzbaur, da Universidade da Pensilvânia, descreveu a observação das mitocôndrias, as partes da célula que fornecem a sua energia, e da autofagia, o processo através do qual uma célula elimina mitocôndrias danificadas e outros resíduos. O trabalho da sua equipa sobre a síndrome do X frágil concluiu que, sem a proteína FMRP, as mitocôndrias funcionavam mal tanto em neurónios de ratinho como em neurónios humanos, o que aponta para possíveis novas vias de tratamento. «Quando um neurónio morre num doente com ELA, Parkinson ou Huntington, já é tarde para o salvar», afirmou Holzbaur. O objetivo é detetar os primeiros sinais de stresse.
A ELA, esclerose lateral amiotrófica, é notoriamente difícil de diagnosticar, porque não existe um teste definitivo. Os doentes podem passar quase um ano a consultar médicos e especialistas antes de a doença ser confirmada, e esse atraso custa tempo, quando os poucos tratamentos disponíveis e os ensaios clínicos são mais úteis numa fase inicial. A microscopia robotizada combinada com IA poderá, um dia, oferecer uma forma mais rápida e objetiva de apoiar o diagnóstico. Estes instrumentos seguem milhares de neurónios motores individuais ao longo do tempo, e a IA analisa as imagens à procura de padrões subtis demais para uma revisão manual, e depois concebe e executa experiências para decidir o que testar a seguir.
Para os doentes, o ganho seria tempo: sinais mais precoces e mais fiáveis poderiam levá-los mais cedo ao tratamento e aos ensaios. Para os investigadores, significa uma forma de testar hipóteses em células retiradas dos próprios doentes. Estes benefícios continuam condicionados. O resultado da IA provém de células de laboratório, as descobertas sobre o X frágil de neurónios de ratinho e humanos, e não foi anunciado qualquer calendário para a utilização nas clínicas. O passo seguinte, que a reportagem não descreve, é demonstrar que os mesmos padrões se mantêm em grupos maiores de doentes.
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