Exame de sangue revela exposição passada à radiação em ratinhos

Um exame de sangue de rotina, do tipo que se faz em quase todas as clínicas, pode guardar um vestígio da radiação que uma pessoa recebeu meses antes. No Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, uma equipa desenvolveu uma ferramenta de aprendizagem automática que lê esse vestígio a partir de um hemograma completo, ou CBC, o painel padrão que mede as células que circulam no sangue. Os primeiros testes foram feitos em ratinhos.
A importância do problema decorre da dificuldade em detetar a exposição hoje. O método usado, chamado biodosimetria, procura alterações biológicas mensuráveis no organismo para determinar se houve exposição e, quando possível, qual foi a dose absorvida. Os testes existentes exigem muito tempo, só podem ser realizados por laboratórios especializados e dão muitas vezes resultados inconclusivos ou difíceis de interpretar, sobretudo após exposições a doses baixas, que são mais comuns e têm maior probabilidade de passar despercebidas. Jamie Inman, investigador do laboratório que coordenou o estudo juntamente com outro cientista, afirmou que a equipa ficou surpreendida com a quantidade de informação que os padrões do hemograma conservavam numa vasta gama de doses e de tempos após a exposição.
A abordagem funciona de forma diferente dos estudos anteriores. Os trabalhos anteriores analisavam parâmetros individuais do hemograma ou os rácios entre alguns deles. O modelo de Chang examina o conjunto completo das medições à procura de sinais combinados que nenhum valor isolado revela, e a equipa afirma que isso lhe dá uma melhor capacidade de transposição quando aplicado a grupos diferentes. As doses de treino foram produzidas pelos coautores Kei Nakamura e Lieselotte Obst-Huebl, da divisão de física de aceleradores e física aplicada do laboratório, que criaram um ambiente de radiação de baixa dose e aperfeiçoaram os procedimentos para quantificar doses próximas dos limites inferiores de deteção dos métodos padrão.
As limitações são claras, e os investigadores afirmam-nas. A origem genética dos animais alterou o funcionamento do modelo: o desempenho foi inferior e variou entre linhagens de ratinhos. Uma abordagem padronizada que funcione para qualquer pessoa continua a ser o grande desafio da biodosimetria, já que duas pessoas podem reagir de forma muito diferente à mesma dose. A ressalva do próprio Inman é que os resultados sugerem que os dados do hemograma poderão contribuir para um rastreio rápido da exposição, mas seriam ainda necessários testes de confirmação. A equipa está otimista quanto à possibilidade de adaptar o modelo a humanos, mas esse passo ainda não foi testado.
O que muda, e para quem? Por agora, os beneficiários diretos são os investigadores, que podem usar o modelo e os dados publicados em aberto para testar as suas próprias abordagens. Para os clínicos e para os serviços de emergência, a promessa é um primeiro rastreio barato, feito com um exame que já existe na maioria dos hospitais, que permitiria identificar quem precisa de análise especializada. O estudo não indica um calendário para que isso aconteça, e não diz como é que a abordagem se comportaria em pessoas, cuja diversidade genética é pelo menos tão grande como a das populações de ratinhos aqui testadas. O próximo passo é construir modelos treinados com essa diversidade e verificar depois se o sinal se mantém no sangue humano.
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