Rins de porco congelados um ano voltam a funcionar em animais

Num rim de porco, o reaquecimento é o momento da verdade. Pela primeira vez, uma equipa liderada pelo cirurgião de transplantes Erik Finger e pelo bioengenheiro John Bischof congelou rins de porco inteiros num estado semelhante ao vidro, manteve-os durante meses a cerca de -150 °C e devolveu-os à vida. Após o reaquecimento, os órgãos recuperaram a cor e produziram urina, os principais sinais de funcionamento. Um dos rins tinha estado congelado durante pouco mais de um ano.
O truque é evitar o gelo, que despedaça os tecidos. A equipa carrega primeiro cada rim com crioprotetores químicos, que funcionam como anticongelantes, e depois infunde nanopartículas de óxido de ferro. Vapor de azoto frio arrefece o órgão até cerca de -120 °C, temperatura a que se vitrifica, ou seja, adquire um estado semelhante ao vidro, antes de estabilizar a -150 °C. O reaquecimento é a parte difícil. Um campo eletromagnético faz com que as nanopartículas libertem calor em todo o órgão, e ajustar a potência do campo controla a rapidez do aquecimento. Os rins de porco são cerca de 100 vezes mais pesados do que os rins de rato que a equipa vitrificou em 2023, e Bischof explicou que a mistura de crioprotetores teve de ser modificada, uma alteração que levou três anos.
Nos testes, os rins reaquecidos foram ligados a máquinas de perfusão, que bombeiam líquido através de um órgão fora do corpo, e transplantados para porcos durante duas horas. Nos dois casos, «ficam logo cor-de-rosa», disse Finger. Começaram a produzir urina em cerca de um minuto, embora apenas cerca de dois terços da quantidade normal. O rim com um ano, testado numa máquina de perfusão, produziu urina de imediato e tinha melhor aspeto do que muitos dos outros.
O resultado segue um marco de 2025. Investigadores do Massachusetts General Hospital, no âmbito de um centro de investigação em engenharia chamado ATP-Bio, conservaram um rim de porco durante 10 dias a cerca de -15 °C, transplantaram-no para um porco vivo e restabeleceram-lhe a função. A Universidade do Minnesota, que cita dados dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, refere que cerca de 20 % dos rins doados não podem ser utilizados, por não conseguirem ser mantidos frios durante tempo suficiente para chegar aos recetores.
Quem ganha, e quando? Armazenar órgãos durante longos períodos daria aos médicos tempo para associar dadores a recetores e, eventualmente, para preparar o sistema imunitário dos doentes, o que poderia reduzir a necessidade de medicamentos antirrejeição para toda a vida. Kevin Myer, que dirige a organização de obtenção de órgãos LifeGift, imagina bancos de órgãos prontos para emergências, como overdoses de drogas e ferimentos por armas de fogo. Trata-se de horizontes, não de datas: as fontes não indicam qualquer calendário para a utilização em pessoas.
Os rins não são perfeitos. Para além da baixa produção de urina, os investigadores atribuem parte das lesões aos crioprotetores. Greg Fahy, pioneiro da criobiologia que não esteve envolvido no estudo, afirmou que as experiências não permitem saber se os rins poderiam ter sustentado a vida. Peter Kilbride, outro criobiólogo não envolvido, classificou o trabalho como «um grande avanço que resolve metade do problema». Os próximos passos são testes mais longos em porcos, crioprotetores menos tóxicos e experiências com rins humanos.
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