Penn State filma ARN dos vírus Zika e chikungunya em células vivas

Dentro de uma célula, o vírus esconde-se à vista de todos. No caso do Zika e do chikungunya, dois vírus transmitidos por mosquitos cujo material genético é ARN, os cientistas têm estado em grande medida às escuras sobre o que acontece depois da infeção, porque poucas ferramentas permitem seguir o vírus ao longo do seu percurso no interior de uma célula viva. Na Penn State, uma equipa liderada por Joyce Jose, professora associada de bioquímica e biologia molecular, filmou agora o ARN viral dos dois vírus a deslocar-se no interior de células vivas infetadas, em laboratório.
A chave é uma marca chamada Mango-II, uma sequência curta de ADN ou ARN inserida diretamente no genoma do vírus. Esta dobra-se em formas sobre o ARN viral de cadeia simples e liga-se a um corante que brilha em verde intenso ao microscópio. Quando o vírus entra na fase de replicação de cadeia dupla, o brilho apaga-se. A colocação da marca foi a parte difícil: o genoma é tão compacto que quase todo ele é essencial, e o local de inserção habitual impediria o vírus de se replicar. A equipa colocou então a marca na região que codifica proteínas, algo que nunca tinha sido feito para visualizar o ARN viral. Segundo a equipa, a marca não afeta o ciclo de vida do vírus.
Os dois vírus deslocaram-se de maneira diferente. O ARN do Zika está ancorado ao retículo endoplasmático, a principal rede de produção e transporte da célula, ao passo que o ARN do chikungunya viaja de forma mais ampla e mais rápida ao longo da membrana plasmática. Jose compara as ferramentas mais antigas a uma fotografia: a microscopia eletrónica capta imagens fixas e perde as interações momento a momento. A imagem em tempo real, afirma, é «a diferença entre uma fotografia e um vídeo». A equipa diz que os padrões de movimento coincidem com o que estudos publicados anteriormente tinham descrito.
A mesma marca funcionou também como um anzol. Depois de extraírem o ARN viral marcado das células infetadas, os investigadores identificaram, após a comparação com dois controlos, mais de 200 proteínas do hospedeiro que interagiam com o vírus Zika com elevada confiança, e um conjunto menor no caso do chikungunya. 132 fatores do hospedeiro são partilhados pelos dois vírus. Trata-se das proteínas celulares de que os vírus dependem para sobreviver, e cada uma delas é um possível ponto onde um medicamento poderá interromper a infeção.
Para os doentes, o benefício é indireto e ainda distante. Jose observa que não existem atualmente bons tratamentos antivirais para nenhuma das duas infeções. O estudo não anuncia nenhum medicamento nem nenhuma data, e as experiências foram realizadas em células humanas disponíveis comercialmente, em laboratório. O que oferece aos investigadores de antivirais é um mapa do quem, do quê, do onde e do quando o vírus utiliza a célula hospedeira, obtido com um método que deixa a infeção intacta. Jose afirma que a técnica poderá ser aplicada ao dengue, à hepatite C e ao rinovírus. Segundo ela, a equipa dedicou oito a nove anos a chegar a esta imagem em tempo real.
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