CRISPR silencia fusões genéticas do cancro em células de laboratório

Uma célula cancerosa transporta uma união que nenhuma célula saudável possui: dois genes que outrora estavam separados e agora se fundiram num só. Investigadores do Peter Mac, em colaboração com os doutores Mohamad Fareh e Wenxin Hu, descobriram uma forma de atingir precisamente essa união. Num artigo publicado na revista Science Advances, relatam ter silenciado nove fusões genéticas que impulsionam o cancro, em modelos de células de laboratório.
Uma fusão génica começa com uma lesão. Quando o ADN se parte no interior de uma célula e é reparado incorretamente, partes de dois genes diferentes ficam unidas. Segundo os investigadores, estas fusões estão presentes em cerca de 20 % de todos os cancros e atuam como «verdadeiros impulsionadores oncogénicos» em 16,5 % dos casos. Algumas são suficientemente comuns para terem nome próprio: o BCR-ABL1 aparece em quase todos os casos de leucemia mieloide crónica, e o EWSR1-FLI1 em mais de 85 % dos casos de sarcoma de Ewing, um cancro raro dos ossos e dos tecidos moles circundantes.
A ferramenta é o CRISPR-Cas13, um conjunto de tesouras moleculares que pode ser programado para reconhecer uma sequência específica. A equipa aponta-a para o local onde os dois genes se encontram, de modo que o ARN mensageiro do gene fundido seja silenciado e os seus efeitos cancerígenos cessem. Como cada tumor pode apresentar uma fusão ligeiramente diferente, a programação varia de doente para doente. «Em vez de desenvolver uma tecnologia completamente diferente para cada cancro, podemos reprogramar o sistema CRISPR», afirma Hu.
Para um doente, isto significaria um tratamento adaptado à alteração genética exata do seu tumor, mas esse resultado ainda está longe. O método foi, até agora, demonstrado apenas em modelos celulares de laboratório, e não em animais nem em pessoas. A equipa ainda tem de demonstrar com que eficácia a maquinaria CRISPR consegue chegar aos tumores no organismo e se atinge apenas as células cancerosas em modelos mais complexos. Fareh considera o trabalho «um passo importante» para transformar a informação genética do cancro em novos tratamentos; as próximas etapas são essas experiências, e não os ensaios clínicos.
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